Brasileiros e o prêmio Nobel.

Depois da derrota da seleção brasileira para a seleção alemã, no primeiro jogo das semifinais, as redes sociais foram invadidas por uma série de postagens provindas daqueles que gostam de alimentar o chamado "complexo de vira-lata", para usar uma expressão cunhada por Nelson Rodrigues, numa referência ao trauma sofrido pelos brasileiros em na Copa de 1950, também realizada no Brasil, quando o selecionado canarinho foi derrotado pela seleção uruguaia em pleno Maracanã.

O que mais me chamou a atenção, pela falta de criatividade e por partir de Ronaldo Nazário, ex-jogador de futebol, antigamente denominado "Fenômeno", e que foi um dos responsáveis pela derrota da seleção brasileira na final Copa da França. Para demonstrar a suposta vantagem da Alemanha sobre o Brasil em outras áreas, Ronaldo Nazário postou no Facebook uma comparação entre os vencedores do Prêmio Nobel na Alemanha e no Brasil. Segundo o ex-craque, os alemães teriam uma vantagem de 183 vencedores do Prêmio Nobel alemães, contra zero brasileiros.

Instigado por essa afirmação, empreendi uma pesquisa a respeito e me surpreendi com o fato de que a informação de Ronaldo Nazário não era correta. O Brasil já teve cidadãos indicados e que receberam a premiação anualmente outorgada pela Fundação Alfred Nobel, da Suécia.

A revista Superinteressante, em sua edição de Abril de 2004, assinala que o brasileiro Peter Brian Medawar, filho de uma inglesa e de um libanês, nasceu em Petrópolis, RJ, e foi laureado com o prêmio Nobel de Fisiologia (Medicina), em 1960. Entretanto, Peter não havia prestado o serviço militar obrigatório e, por esta razão, perdeu a cidadania brasileira, optando pela cidadania inglesa de sua mãe; assim, o prêmio acabou somando nas conquistas da Inglaterra e não do Brasil.

Além de Peter Brian Medawar,  o poeta alagoano Jorge de Lima (1893-1953) teve o seu talento reconhecido em 1947 e foi indicado ao Prêmio Nobel. Impressionado com a sua obra, Artur Lunkvist convenceu a Academia a dar o Nobel de Literatura a ele no ano de 1958, já que havia uma lista de autores para ser contemplados antes. Porém, Jorge de Lima faleceu em 1953. E o Nobel só premia vivos.

Outros três brasileiros chegaram muito perto da láurea sueca: o pernambucano Mario Schenberg e os mineiros  Carlos Chagas e Carlos Drummond de Andrade. Mario Schenberg foi considerado o maior físico-teorico de seu tempo. A respeito dele, Albert Einstein teria dito: "se eu tivesse de escolher um cientista como continuador de minha obra, seria o brasileiro Schenberg". 

Já o médico Carlos Chagas foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina por quatro vezes. Curiosamente, quando a Fundação Alfred Nobel procurou referências sobre Carlos Chagas por ocasião de sua indicação ao Prêmio Nobel de Medicina de 1921, seus "colegas" brasileiros disseram que ele não fazia jus a tamanho reconhecimento. Diante disso, em 1921 ninguém foi laureado com o Prêmio Nobel de Medicina. 

O poeta Carlos Drummond de Andrade também foi procurado para traduzir algumas de suas obras para a Fundação Alfred Nobel, sendo que nesse momento seu nome já estava sendo fortemente atrelado ao Prêmio Nobel de Literatura, mas ele simplesmente ignorou a solicitação, argumentando que o merecedor da premiação seria o seu colega baiano Jorge Amado. 

Em alguns casos, brasileiros acabaram não sendo reconhecidos em decorrência de injustiças cometidas pelos organizadores da premiação. O físico Cesar Lattes comprovou experimentalmente a existência da partícula subatômica méson pi. Contudo, quem levou o Prêmio Nobel de Física de 1950 foi o britânico Cecil Powell, que havia ajudado Lattes na redação do estudo.

O baiano Jorge Amado (1912-2001) ofereceu perigo de gol até os últimos minutos do segundo tempo. Mas acabou partindo antes que o prêmio chegasse. O momento em que esteve mais próximo do Nobel de Literatura foi em 1967, logo após o sucesso de Dona Flor e seus Dois Maridos. Nesse ano, perdeu para o guatemalteco Miguel Angel Astúrias.

O bioquímico carioca Maurício Rocha e Silva (1910-1983) fez uma grande jogada na briga pelo Nobel de Medicina. Ele descobriu a bradicinina, substância importante para a controle da pressão arterial, em pesquisa com o veneno da cobra jararaca. Infelizmente, A Fundação Nobel não prestou muita atenção no trabalho de Maurício.

O bioquímico paulista Sérgio Henrique Ferreira (1934-) ajudou Rocha e Silva na criação de drogas a partir da bradicinina, em conjunto com o britânico John Vane. O trabalho valeu o Prêmio Nobel de Medicina de 1982. Mas somente o britânico recebeu foi premiado.

Dom Paulo Evaristo Arns (1921-) concorreu ao Prêmio Nobel da Paz em 1990. Contudo, naquele ano, o premiado foi o Dalai Lama. Dom Hélder Câmara, Zilda Arns, o sociólogo Betinho e até o presidente Lula também deram a sua contribuição para emplacar na categoria

No campo da economia, o paraibano Celso Furtado (nascido em 1920) foi indicado ao Prêmio do Banco Central da Suécia de Economia em memória de Alfred Nobel, conhecido como Prêmio Nobel de Economia de 2004.

Em 2001, Otto Gottlieb (1920-), que nasceu na República Tcheca e se naturalizou brasileiro, concorreu ao Prêmio Nobel de Química. Nada mais natural para o cientista que, de tão apaixonado pelas nossas plantas, inventou um índice para medir a biodiversidade de ecossistemas como a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica.

Em 2003, o então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, pela sua luta contra as desigualdades sociais. Com isso, Lula tornou-se o único presidente brasileiro a concorrer ao prêmio. A laureada, contudo, foi a ativista iraniana Shirin Ebadi.

Ou seja, longe de ser um País sem indicações ao Prêmio Nobel, como supõe a vã filosofia, o Brasil tem contribuído em muito em todas as áreas de conhecimento, assim como formulação de políticas públicas que chamam a atenção daqueles que são incumbidos de processar tais nomeações. De todos os indicados, dois brasileiros chegaram a ser nomeados ao Prêmio; infelizmente um veio a perder a nacionalidade brasileira e outro morreu antes de receber a láurea.

Isto, porém, em nada desfavorece o Brasil que, nos próximos anos, terá novas indicados ao Prêmio Nobel e, graças à relevância das pesquisas científicas, das obras literárias e das ações desenvolvidas em favor da Paz Mundial, em breve novos brasileiros serão contemplados com esta importante premiação. Qualidade para tanto não nos falta.

Comentários

  1. infelizmente no Brasil o que merece destaque é jogador de futebol é traficante é politico corrupto carnaval e outras bobagens que a midia acha que da lucro.

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