Serviço de Obras Sociais de Ponta Grossa - uma visão crítica.
Desde o final de
2013, desenrola-se no âmbito do Conselho Municipal de Assistência
Social (CMAS), de Ponta Grossa, uma verdadeira batalha entre os
conselheiros governamentais e os conselheiros não governamentais,
tendo como foco a inusitada situação do Serviço de Obras Social
(SOS).
Nascido em 1973,
durante a gestão do Prefeito Luiz Gonzaga Pinto, o Serviço de Obras
Sociais surgiu na esteira de experiências que surgiram ainda no
período do Império e, quase sem nenhuma alteração, foram
replicadas no período Republicano e que, sempre, estava centrada
na figura da Imperatriz ou da Primeira-Dama, configurando a
institucionalização do assistencialismo na figura da mulher do
governante.
Isto,
numa época em que nenhuma ação governamental existia que tivesse
como foco o pobre e o desvalido, para usar uma linguagem própria da
época; foi ainda com este fundamento que, em 1942, surgiu a Legião
Brasileira de Assistência, criada e presidida por Darcy Vargas,
esposa do então Presidente Getúlio Vargas, tendo como base o
filantropismo, com o objetivo inicial de prestar auxílio às
famílias dos soldados enviados à Europa para lutar na 2ª Guerra
Mundial; com o fim da guerra, a LBA continuou existindo, agora para
ajudar as famílias carentes.
A
LBA e as entidades similares que foram surgindo nos diversos Estados
e Municípios sempre tiveram as primeiras-damas como presidentes, já
que, naqueles tempos, o papel da mulher do governante era apenas o de
sair nas fotos oficiais (quando muito), razão pela qual reunia as
suas amigas para formar a direção de tais organizações que, por
vezes, eram as únicas que existiam no segmento hoje chamado de
“não-governamental”.
Este
foi o perfil emprestado ao SOS de Ponta Grossa desde os primeiros
tempos, atuando como o braço “filantrópico” do poder público
local, diante da inexistência daquilo que hoje é definido como a
Política de Assistência Social.
Naquela
época, poucas eram as entidades assistências existentes, quase
sempre vinculadas a organizações religiosas que, igualmente, tinham
a sua atuação pautada no assistencialismo, com a realização de
campanhas de arrecadação de alimentos e agasalhos para distribuição
aos “mais pobres”. Por isso, a Primeira-Dama, como Presidente do
SOS, era tida e havida como verdadeira integrante do Governo
Municipal, ocupando uma posição que hoje corresponde à do
Secretário Municipal de Assistência Social.
Não
é por menos que, a partir da década de 1980, com a criação das
fundações municipais que passariam a atuar na área da assistência
social (Fundação Proamor de Assistência ao Menor, Fundação
Municipal de Promoção ao Idoso e Fundação Municipal de Promoção
e Proteção às Pessoas Portadoras de Deficiências), todas elas
tinham a primeira-dama como presidente dos respectivos Conselhos de
Curadores ou Conselhos de Administração. Aliás, mesmo quando estas
fundações foram fundidas para a criação da Fundação Proamor de
Assistência Social, em 2005, a Primeira-Dama foi mantida como
Vice-Presidente nata de seu Conselho de Administração.
Isto,
apenas para demonstrar o quão arraigado se encontra, ainda, no
inconsciente coletivo, o primeiro-damismo, não obstante toda a
transformação por que passou a antes chamada “promoção social”
até chegar à definição de uma Política de Assistência Social, no
âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), este criado em 2011.
Não
é por outra razão que o Serviço de Obras Sociais de Ponta Grossa
ainda é visto como a expressão ou a face “assistencialista” da
Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, ao ponto de a sua diretoria ter
a duração do mandato do Prefeito e os seus diretores sempre se
referirem às ações desenvolvidas como correspondentes a esta ou
àquela gestão municipal.
Foi exatamente por isto que, no final de 2013, o Conselho Municipal de
Assistência Social indeferiu o pedido de registro formulado pelo
SOS, entidade que, na época, sequer tinha um quadro social, já que
a sua assembleia geral, de acordo com o estatuto, era composta apenas
pelos “diretores”, todos indicados pela Primeira-Dama, que então
ostentava o título de presidente de honra da entidade.
Ainda
que a história do SOS se confunda com a própria história recente
do Município de Ponta Grossa, ele não pode nem deve mais ser visto como
uma organização governamental que “pertence” à Prefeitura
Municipal, ao ponto de o patrimônio público e o particular se
confundirem, numa verdadeira abstração das personalidades jurídicas
pública e privada ostentadas.
Das
irregularidades apontadas em relação ao Serviço de Obras Sociais
de Ponta Grossa na última reunião extraordinária do Conselho
Municipal de Assistência Social (em 29 de abril), as principais são as seguintes: a
entidade ocupa uma enorme parte do prédio público em que funciona a
Secretaria Municipal de Assistência Social (o qual é apontado como a sua sede), enquanto o prédio de
sua propriedade está sendo ocupado por um órgão municipal (a
Defesa Civil); a entidade cede pessoal próprio para diversos órgãos
da Prefeitura Municipal, desvirtuando com isso a aplicação de
recursos do Fundo Municipal de Assistência Social; a entidade
utiliza bens públicos para o desenvolvimento de ações constantes
de seu plano de trabalho; a entidade utiliza servidores da Prefeitura
Municipal que lhe são cedidos, inclusive para o desempenho de
funções diretivas, o que é vedado por lei; o plano de trabalho do
SOS se confunde com as ações previstas em lei para serem
desenvolvidas pelos CREAS e CRAS.
As
mais grave irregularidades, contudo, decorrem do fato de o SOS não
ter inscrição definitiva no Conselho Municipal de Assistência
Social, já que conta apenas com uma liminar deferida pela Justiça
no mês de janeiro de 2014, e também não contar com registro no
Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, embora um de seus
projetos seja desenvolvido exatamente com crianças e adolescentes.
Hoje
pela manhã, quando vinha para o trabalho, deparei-me com uma
situação que ilustra bem a confusão patrimonial que existe entre o
patrimônio público e o do SOS (que é uma instituição privada):
ao meu lado passava um caminhão de propriedade da Fundação Proamor
(ao menos era isso que constava em adesivo aposto em suas portas),
com uma caçamba baú de propriedade do SOS (conforme indicava o
adesivo aposto em ambos os lados, identificando o programa Banco de
Alimentos, financiado com recursos do Fundo Municipal de Assistência
Social).
Particularmente,
acho muito importante a preservação da memória histórica do SOS;
porém, é preciso que essa entidade, que é uma organização não
governamental, seja tratada como todas as outras entidades que também
desenvolvem ações no âmbito da Política Municipal de Assistência
Social, com recursos repassados pelo Fundo Municipal de Assistência
Social.
Segundo
o novo Estatuto do SOS ele não é mais presidido pela Primeira-Dama
e, tampouco, a sua diretoria é formada pelas esposas dos secretários
municipais; nem por isso, o SOS deixou de ser considerado, pela
própria Prefeitura, como um de seus órgãos, ou melhor, uma ONG
governamental, se é que isto é possível.
Das
tantas organizações não governamentais que atuam em Ponta Grossa,
o SOS é a única que é apresentada no site da Prefeitura Municipal,
com link
entre os diversos órgãos e entidades públicas, como pode ser visto
no endereço http://www.pontagrossa.pr.gov.br/governo, onde é
descrito como “entidade encarregada de promover e recuperar os
indivíduos junto à sociedade”.
Tem
algo mais assistencialista do que isto?
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