Ponta Grossa: os desafios do trânsito urbano


Com mais de 180 mil veículos licenciados, a que se somam pelo menos mais uns 30 mil licenciados nos diferentes municípios da região dos Campos Gerais que circulam em suas vias, o trânsito em Ponta Grossa ganha contornos de caos urbano, principalmente nas chamadas hora do rush. A isto acrescenta-se um número indeterminado de indisciplinados pedestres que parecem ignorar toda e qualquer regulamentação viária, transpondo as vias públicas em meio à movimentação caótica de carros, ônibus, caminhões e motocicletas que se esgueiram pelas estreitas vielas do centro urbano.

O que falar, então, dos ciclistas? Fora aqueles que conduzem, em grupos, vistosas bicicletas de corrida e que transitam principalmente à noite, com batedores da Autarquia Municipal de Trânsito, os demais sequer desconfiam que os sinais de trânsito são para todos, inclusive para os condutores de veículos de tração humana. Estes conduzem suas magrelas na contramão de direção, não respeitam semáforos, sobem pelas calçadas e transitam por entre pedestres e veículos. Tudo isto sem a utilização de qualquer equipamento de proteção. Não é de se estranhar que às vezes se machuquem ao cair da bicicleta, sejam atropelados ou simplesmente causem acidentes com outros veículos, ocasião em que saem discretamente, como se nada tivessem a ver com o fato.

As autoridades de trânsito parecem ignorar por completo a irresponsabilidade de pedestres e ciclistas, os quais não recebem nenhuma reprimenda pelo malfeito. Contudo, motocicletas, automóveis, utilitários menores, caminhões e ônibus mal conseguem transitar entre os inúmeros semáforos sem passar por um dos muitos sistemas de aferição de velocidade, os conhecidos radares ou pardais.

Os semáforos quase nunca estão sincronizados, o que provoca incontáveis engarrafamentos, até mesmo nos momentos de trânsito mais calmo; parece que há uma extrema dificuldade de manter o sincronismo, especialmente na Rua Coronel Bittencourt, onde diariamente há um dispensável engarrafamento logo após a Praça Barão do Rio Branco, no sentido Santa Casa.

Na incessante batalha dos pedestres com os veículos automotores, aqueles parecem ganhar alguma vantagem, já que a equipe de planejamento viário da Prefeitura criou as chamadas travessias elevadas, que nada mais são do que uma faixa de pedestre pintada em cima de uma lombada achatada. A ideia é boa e, com isso, motoristas passaram a prestar a devida atenção para as faixas de pedestres que, antes, eram percebidas como meros enfeites das vias públicas.

Mas, nas vias em que as travessias elevadas não foram implantadas os pedestres continuam ignorando a existência de faixas próprias para a transposição de vias e os motoristas a passar e parar sobre estas, sem sequer notar a presença de pedestres bem-intencionados que tentam caminhar sobre estas faixas brancas pintadas nos cruzamentos.

Eu imagino que as faixas para pedestre ficariam melhor se fossem pintadas no meio de cada quadra, em vez de nas esquinas, onde os condutores têm dificuldades para visualizar os veículos que transitam pelo cruzamento sem terem que parar sobre elas. Além disso, é pelo meio da quadra que os pedestres costumam transpor as vias públicas, o que fazem por entre os veículos parados ou em marcha mais lenta.

De qualquer sorte, é preciso fazer muito mais para se introduzir mudanças profundas no relacionamento de todos os usuários das vias urbanas; pedestres precisam ser convencidos a transpor as vias pelas de segurança e condutores precisam ser convencidos a respeitar as faixas de segurança e os pedestres que por elas transpõem a via pública.

É um imenso desafio, sem dúvida; mas que precisa ser enfrentado. Consta que, em Brasília, o Governo distrital precisou de dois anos de trabalho conjugado com a sociedade civil, Igrejas e órgãos de comunicação social para implantar um projeto denominado “sinal de vida”. Hoje, o pedestre se aproxima da faixa de segurança, levanta a mão e todos os veículos param imediatamente para que sejam possível a transposição segura. E, o que é melhor, ninguém buzina.

Outras cidades em que já estive, como Florianópolis, Aparecida e Fortaleza, os condutores nutrem um profundo respeito pelos pedestres, a ponto de ser suficiente que estes coloquem os pés na via pública para que os veículos, que transitam em velocidade baixa, parem e lhes deem passagem.

Este ainda é um cenário de sonho para os usuários do trânsito princesino. Mas é plenamente possível de ser realizado. É um dos tantos desafios para o governo municipal. Afinal, os dissabores do trânsito refletem diretamente nas cercas de trezentas e cinquenta vítimas anuais dos mais diversificados acidentes que se verificam nas vias municipais.

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